Sementes do Caminho: indisfarçável saudade

Sementes do Caminho: indisfarçável saudade: Crônica da vida de um solteiro provisório observando um gato A imagem é indiscutível. O gato espera por algo. E o algo se chama famí...

indisfarçável saudade

Crônica da vida de um solteiro provisório observando um gato


A imagem é indiscutível. O gato espera por algo. E o algo se chama família da casa, especificamente a sua "mãe".


O gato por vezes durante a noite cola o nariz na porta. A gente só imaginava que ele fizesse isso em nossa ausência. Mas eu ali na mesa trabalhando durante o dia inteiro e ate há certas horas da noite, notei. Ele fica mesmo esperando o agito chegar. O Koto gosta da turma e do tratamento que a galerinha traz.

Coitado. Se dependesse da minha interação, ele passaria fome. Aliás, não fosse as insistentes recomendações, certamente morreria. Eu o ignoro quase por completo. Não fosse me sentir incomodado por ver um bicho dormindo no sofá e o entrelaçar de pernas que ele enfrenta no meu caminho, certamente passaria o dia sem lembrar dele.

Os dias são produtivos em silencio. Achava. Mas sem a tropa por perto o silencio é exagerado.

Ai veio a ideia de mandar a foto do gato com o nariz na porta. Pressão psicológica para antecipar o retorno da família. Quem dera eles se ressentissem de piedade e voltassem antes. Risos. A imagem é cômica. Um bicho parado com o focinho entre o batente e a porta. A cada som de movimentação do elevador traz esperança. "Deve ser agora, ela voltou", julgo que pensa o felino. Ouvindo o som ele corre para sentir o cheirinho vindo do corredor.

A esposa e os filhos vivem por descobrir as semelhantes preferências que tenho com o bichano. Misso Shiro. Levedura de Cerveja. Iogurte. Peixinho desidratado. As crianças adoram se divertir a custa dessas identidades.

A julgar pela espontânea imagem que fiz do gato, agora tenho mais uma coisa em comum. Que os filhos não me ouçam. Ambos esperamos a volta da turma. O gato tem a mera expectativa de retorno. A angustia incerta. A desinformação. Ele tem apenas a esperança que retornem.

Não fosse a minha certeza,  a imagem do Koto com o focinho na porta seria a minha própria imagem. Eu consigo resistir. Ele não. Quase tive vontade de ser solidário. Ou quase vontade de repartir essa pitada de tristeza. Ou talvez quisesse dizer pra ele que entendo esse sentimento de angústia. Porque não? Não tinha ninguém pra ver a minha indisfarçável saudade.

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